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Archive for setembro \28\UTC 2009

Nu reclinado (1917) - Amedeo Modigliani

Nu reclinado (1917) - Amedeo Modigliani

Mais vale uma filha na mão/ Do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Jorge Maravilha” – Leonel Paiva / Julinho da Adelaide (Chico Buarque)

Sou fã das filhas dos coronéis.

Eu acho lindo que as jovens estejam retirando seus pais, homens da mais alta hierarquia militar, do desempenho de funções. Setembro de 2008. Coronel Péricles Menezes, comandante da Polícia Militar de Sergipe, é exonerado pelo Governador Marcelo Déda após arrombamento de uma casa na tentativa de encontrar sua filha de 16 anos com um suposto namorado. Setembro de 2009. Coronel Maurício Iunes, comandante do policiamento da capital, deixa o cargo depois de um jovem de 20 anos denunciá-lo por espancamento. Razão: o estudante ter tido um encontro furtivo com sua filha de 14 anos. É… não tem curso, nem patente que ensine a fórmula de como ser pai.

Não falo isso com veneno jornalístico, mas como mulher e moradora de uma cidade com comportamento hipócrita como Aracaju. Toda uma celeuma porque uma situação familiar foi exposta publicamente por conta do poder que seus protagonistas exercem. Sabe o que seria sensacional? O pai chamar esse “jovem comedor” para um bate papo no barzinho da esquina. Quando vamos ter um outro tipo de comportamento sobre a vida sexual dos nossos filhos? Mas os jornais vão continuar vendendo mais edições por essas histórias (Ah! Nelson Rodrigues, saudade do seu texto).

A meninada é ligadíssima na internet, navega em tudo que é site sem caretice. Aliás, vê Big Brother com a família no sofazão da sala. Programinha que só desinforma, estimula competição, esvazia o senso de coletividade, justifica a picaretagem, legitima apropriação desmedida do capital (o sonho do pobre querer ser milionário é um contra-senso), além de deserotizar os corpos (tudo é produto em exposição e para compra na próxima edição da Playboy). Ops… tinha esquecido que vivemos na cidade onde os motéis são chamados de pousada (criam até lei municipal pra isso!), livro de escritor sergipano é proibido no vestibular porque fala de sexo e na propaganda somos exemplos da qualidade de vida no Brasil. Engraçado, não?

Tudo se justifica. Nesse mondo bizarro (com a licença de Saulo Coelho), fico com as palavras do finado Newman Sucupira, poeta e fotógrafo que escreveu “Contos malditos e histórias de mim”, que já dizia que Aracaju fede, principalmente, quando é para falar da conduta moral dos seus moradores. Estou do lado dessas jovens. Nada menos adolescente do que namorar escondido, contar um desdobro pros pais e viver uma experiência. Juventude é descoberta. Apesar de novinhas, essas garotas demonstram que são decididas. Agora, imagina como seria diferente o comportamento desses pais se o caso fosse com filhos/homens.

Fardados ou não fardados, está na hora de atualizar o conceito de papai e mamãe. Autoridade nenhuma nesse mundo vai dar conta da habilidade dessa juventude orkuteira/twitteira. Eles são mais inteligentes e capazes do que seus velhos. Comecem a ter argumentos e, por favor, não leve um caso bobo como namoros proibidos para delegacia. O erário público agradece. Façam jus aos anos de experiência. Seus cabelos brancos indicam que o tempo passou, não que o mundo ficou velho. Há novas práticas de relacionamento. Hoje ser adulto está intimamente ligado ao desapego e responsabilidade afetiva. E se preparem logo, porque muita coisa tá rolando por aí.

Dêem meninas, dêem com carinho, amor e camisinha (codinome do juízo)! Dêem porque vocês querem.

Cheiro!

Lu Almeida, por favor menos neura no mundo.

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Enrique Diaz e Coutinho na contação do documentário.

O gênero documentário é o melhor da produção cinematográfica brasileira nos últimos vinte anos. Parece que a ficção se tornou, boa parte, estetizada ou sisuda demais. Somos um tanto órfãos. Sinto falta de um cinema sacana e crítico, como ninguém faz desde da produtora Belair. Para irritação de Júlio Bressane, cadê os filhos do (mal)dito cinema marginal?

Voltemos ao ponto: o trabalho novo (sic!) de Eduardo Coutinho que vi no Espaço Unibanco, conhecido como o Cine Glauber Rocha. Aliás, não posso deixar de dizer que depois de morto, Glauber conseguiu alcançar seu projeto político pro cinema brasileiro. No espaço há lindos painéis dos principais filmes dele nas paredes do multiplex. Avistei um paredão específico com plano americano do Porfírio Diaz na clássica sequência de “Terra em Transe” (onde carrega a cruz) juntamente com a logomarca do Unibanco. É realmente irônica as veredas desse sertão-mundo. Enfim, continuemos ao pequeno comentário sobre “Moscou”.

Senti um setentão dando um passo no escuro, melhor intencionada, diria andando pra frente. Vi um Coutinho radicalizando seu objeto, talvez assumindo mais riscos. O que também não é novidade na sua longa trajetória. Até hoje Coutinho tem um diferencial em relação a turma do CPC (Centro Popular de Cultura). Quando dô esse exemplo me refiro ao “Quatro Vezes Favela”. Enquanto seus parceiros de registros documentais ficavam bastante presos ao roteiro, Coutinho sempre permitia o espaço do inacabado no seu trabalho. O carioca sempre se propôs a ter uma obra mais aberta, ao esquema working in progress. De “Cabra marcado para morrer” até agora, o modus operandi de Coutinho sempre permite uma variação e um acaso que nenhum outro documentarista consegue se ater. Ele virou escola, desenvolveu uma forma de cinema que neguinho fica aí se desdobrando para dar continuidade.

Ao ir na bilheteria é como se Eduardo Coutinho, logo depois de ter fumado um cigarro, pegasse nossa mão e dissesse: – Vem comigo. Tenho algo pra mostrar do que vi e do que me contaram, mas saiba que quero te dizer de como tudo foi feito. Assim começa “Moscou”: a câmara voltada para uma mesa vazia e sua indefectível voz pigarrenta in off nos narrando o presente (com verbos no passado) sobre seu jogo. Durante poucas semanas ele fala que fez o registro da montagem de uma peça “As três irmãs” Anton Tchekhov juntamente com grupo teatral “Galpão“. Temos várias narrativas ali dentro: os atores se narrando com o fazer a peça, a narrativa do diretor, são as cenas da peça, as encenações das vidas dos atores e o ensaio de fazer um documentário sobre isso tudo.

Certa vez li uma entrevista feita por Mauricio Stycer com Coutinho onde falava sobre as incompetências da esquerda. Sua capacidade de diagnosticar aquilo que todos sabem, mas não conseguem verbalizar é notável. Coutinho permanece político. De certa forma, me parece que aborda um novo patamar dos entraves da política de criação (do fazer cinema documental?). A câmera, os atores, ele (como personagem de diretor) e nós (espectadores) estão em intensa negociação. Já não interessa ficar naquela de debater “o real”, agora é ir além do discurso do “irreal”, focar naquilo que se define como invenção, memória etc…

A consagração como um dos melhores cineasta na atualidade poderia ser um empecilho de criar. Pelo contrário, faz um Coutinho com menos certezas. O velhinho disse que depois de ter filmado todo processo e partir para edição teve dúvidas se realmente havia, ali, um filme. Pasmem! Concluir isso depois de mais de 70 horas de gravação!? Recorreu ao seu produtor, também cineasta, João Salles. Talvez tenha deixado isso como brecha e partilha pro seu espectador.

O pensamento cinematográfico coutiniano sobre o pacto entre os filmados, quem filma e os espectadores está cada vez menos necessário, embora seja super legítimo e honesto. Era como se seu filme anterior “Jogo de Cena” fosse um desenho do que havia por vir. Antes ele assumiu a responsabilidade de gravar atrizes conhecidas pela televisão, atrizes de teatro, mulheres não atrizes. Todas manejavam a cena relatando histórias entre o falso e verdadeiro, convencimento, truque, repetição, brincadeira. Deveras um filme metalinguístico. Ali é ele dizendo o que pensa literalmente do cinema, mas em “Moscou” nada disso vale.

Agora, Eduardo Coutinho coloca um ator contando sua própria história em encenação e fazendo parecer que o quê realmente interessa é ser tudo irreal/real ao mesmo tempo. Somos convidados a viver a angústia em cena, na cena e no desvelar dos enquadramentos. Sai da sala escura com a sensação que o cabra de cabeleira branca quer mais. Sua tese de documentário como ficção se consolida e começa a tomar novas formas de subjetivação (e pode?).

Nunca tinha visto um Coutinho apalpando algo tão irresoluto. Do lado de cá da poltrona, senti um diretor bastante brechtiano. Será que foi por isso que’le escolheu o “Galpão”? A confiança é arapuca no cinema coutiniano. O filme é, antes de mais nada, um registro de busca. Na peça “As três irmãs” a cidade de Moscou é a representação da utopia, em “Moscou” é o não-lugar do Eduardo Coutinho. O que nos resta enquanto espectadores é contingente. E, agora, o que será que’le vai fazer no seu próximo laboratório?

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Bora Maestro! Isso que é respiração circular no soprano reto.

Bora Maestro! Isso que é respiração circular ...

É impressionante a quantidade de bons músicos que a Bahia reserva. Gostaria de vê-los, mais vezes, na imprensa pela somzera que fazem e não só pelas paradas de sucesso. A Ivete Sangalo mesmo tem um maestro como Letieres Leite no sax alto. Um cabra responsável por nada menos que a Orkestra Rumpilezz. Você já ouviu?

Vi a formação completa ontem (dia 24) no XVI Festival de Música Instrumental da Bahia no mesmo palco onde eles se apresentaram pela primeira vez, Teatro Castro Alves. Fiquei super emocionada. Ó paí, ó! Coisa linda, viu? hehehehe

Tentei duas vezes entrevistar esse miseravão. Sem êxito. Deixe estar, um dia pego o danado pra um longo bate papo – incluindo o ex-Sec Banda (SE), digníssimo Gilberto Jr. (trompete). Enquanto não rola, dá uma lidinha na prosa feita por Fernando de Lucena e Renata D´Elia.

Limpe os ouvidos: Coisas (1965) Maestro Moacir Santos e Orquestra AfroBrasileira (1968) do Maestro Abigail Moura.

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Tetê: endiabrada à Gil Vicente

Ando bulinada. Depois de ver Inês Peixoto, da desconcertante Tânia Farias, não podia deixar de falar de Tête Nahas. Nunca mais a vi em cena. Aliás, nem sei se ainda faz parte do Grupo Imbuaça. Me recordo com carinho da encenação do “Auto da Barca do Inferno” na Praça Fausto Cardoso (palco dos melhores acontecimentos artísticos, ou não, de Aracaju). No texto de Gil Vicente, ela fazia o diabo: arrasadora na presença de cena, projeção de voz como ninguém, forte na pisada e nos tempos. Lembro bem da respiração ofegante que Tête imprimiu nessa personagem. Tive medo.

Falando no belzebu…Para o apavorante Antunes Filho, o teatro talvez seja de todas as artes aquela que não vai acabar. Isso não é proselitismo rançoso de CPT (Centro de Pesquisa Teatral). O véio nos ensina uma lição simples: o teatro é a arte de fazer o homem se encontrar com outro. Essa frase tem uma perenidade de sentidos. É ali no tête-à-tête.

Da primeira vez que entrei num espaço cênico, guardo essa lembrança: o teatro é verdade. Parece uma constatação boba, mas não de uma egressa da geração televisiva. O confessionário todo é pra dizer que a vontade nunca passou de ser atriz. Aprendi a lidar com o sonho roubado. Prêmio de consolação. Espalhado nos quatro cantos, Aracaju, Minas Gerais ou Porto Alegre, o Brasil me parece um celeiro de filhas da arte do Baco.

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Tânia Farias em Kassandra in Process.

Já que estamos a falar de artes cênicas, não poderia deixar de esquecer de outra atriz que mexe com as ideias. A sensação que tive ao conhecê-la foi de horror. Não por aversão, mas por me senti bastante acuada. É muita coerência e foco num projeto de vida/ação. Foi durante uma oficina ministrada, “Vivências para o Teatro de Rua”, que Tânia Farias disse que a ação no teatro é instrumento de discussão social. Por isso se você vier a participar (é impossível só assistir) de uma peça da “Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz” vai entender porque as palavras ‘utopia, paixão e resistência’ são os lemas grifados no estandarte do grupo.

Não basta ser ator, é necessário ser um ativista político. Olhe, isso não tem nada a ver com Augusto Boal. O trabalho do “Ói Nóis” é influenciado pelo pensamento do dramaturgo francês Antonin Artaud (1896 – 1948) com seu Teatro da Crueldade, e do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898 – 1956), através do Teatro Épico. A tribo surgiu em 1978 com uma proposta de renovação radical da linguagem cênica. Das três modalidades teatrais que’les desenvolvem, a mais virulenta é o chamado Teatro de Vivência. A proposta é quanto à interação entre atores e público: a cada encenação o espaço teatral é modificado por completo de um espetáculo para outro, em função do modo de relacionamento que se quer colocar em prática entre o ator e o espectador.

Um exemplo desse tipo de estudo teatral é a peça “Aos Que Virão Depois de Nós – Kassandra In Process”. Nela, Tânia coloca o público em desconforto a cada fragmento de Albert Camus, Allen Ginsberg, Arthur Rimbaud, Eurípides, Heiner Müller, George Orwell, índios norte-americanos, Jorge Rein, Mahabharatha, Pablo Neruda, Peter Hadke, Samuel Beckett. Rasga mesmo o íntimo do sujeito. É desse teatro de rua visceral que Tânia Farias se dedica há quase duas décadas. Dentro do “Ói Nóis” ela é atriz, encenadora, produtora teatral e coordenadora do Projeto Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo em Porto Alegre.

Os anarquistas (graças!) do “Ói Nóis” suam por um teatro onde se faz lugar de invenção e experimentação, um meio de transformar, de mudar as mentalidades em nível social e também individual. Seu trabalho de investigação sobre a linguagem procura uma lógica diversa da cultura dominante, que provoque um estranhamento em relação à percepção usual de mundo e que seja expressão das contradições da sociedade na qual está inserido. Parece uma atitude à palo seco, mas bastante necessária num mundo marcado pela exclusão, marginalização, pela homogeneização de pensamento. Os atuadores lutam (militam?), ao seu modo, contra a barbárie, a mediocridade e a falta de memória. Apois! arte & política ainda rendem frutos.

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Inês Peixoto toca, canta e apronta em cena.

Tenho inveja das atrizes. Queria ser todas elas em cena, defronte ao público a desnudar o personagem. Queria ter sido uma atriz de teatro, especialmente daquelas que são de formação original, de rua. Ah! como queria ter esse domínio às avessas da palavra e do improviso. Queria que fossemos todas mulheres de ação, mulheres de arena. É uma sensação deliciosamente perigosa ter pessoas em sua volta pisando do chão trôpego das palavras. Sabe aquela vontade bailarina?

Festival de Teatro Pernambucano, Praça do Arsenal no centro do Recife, e a promessa de ver o grupo “Galpão” apresentando seu mais novo espetáculo “Till: a saga de um herói torto”, direção de Júlio Maciel e texto de Luís Alberto de Abreu. A primeira vez que os vi foi na montagem de “Romeu e Julieta” no Festival de Artes de São Cristóvão (FASC) em 2005. Dos mais de vinte anos do grupo mineiro, talvez essa tenha sido a peça mais laureada. Imagina que eles furaram o bloqueio e chegaram ao Globe de Londres, famoso palco onde se encenam apenas peças de Shakespeare.

Segue a sinopse de “Till: a saga de um herói torto”: Um dia, na eternidade, o Demônio aposta com Deus que se tirasse do homem algumas qualidades, ele cairia em perdição. Deus, aceitando o desafio, resolve trazer ao mundo a alma de Till. Vivendo em uma Alemanha miserável, povoada de personagens grotescos e espertalhões, logo de início nosso protagonista é abandonado em meio ao frio e a fome e descobre que a única maneira de sobreviver naquele lugar é se tornar ainda mais esperto e enganador. Assim começa sua saga cheia de presepadas e velhacarias.

Criado pela cultura popular alemã da Idade Média, Till é o típico anti-herói cheio de artimanhas e dotado de um irresistível charme. Um personagem que tem parentesco com Macunaíma ou ao ibérico Pedro Malasartes. Além de Till e uma infinidade de rústicos personagens medievais, a peça conta também a história de três cegos andarilhos que buscam a redenção, sonhando alcançar as torres de Jerusalém e salvar o Santo Sepulcro das mãos dos infiéis. Num mundo em que é cada vez mais marcante a presença dos excluídos e dos desprovidos de qualquer suporte material, a parábola das aventuras do anti-herói Till Eulenspiegel torna-se de uma atualidade inquietante.

Quem domina a cena? Ninguém menos que Inês Peixoto. Ali nasceu para nos arrebanhar em silêncio, deixar o espectador quietinho e vidrado em cada solape do que é ser atriz. Inês é Till. Num dos pontos altos da interpretação, Till desafia o diabo a fazer o peido ficar colorido. Simplesmente hilário. Quero ver de novo.

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Dia Santo : projeções e muito batuque no altar.

Dia Santo : projeções e muito batuque no altar.

O show de Jam da Silva no Seminário de Olinda foi uma experiência à Albert Hoffman. Sensorial.

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