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Archive for maio \28\UTC 2009

Quando George Orwell escreveu seu célebre livro “Revolução dos Bichos” não fazia idéia da pilhéria que iria rola hoje. Impressionante como cada vez o texto do cabra é atual. Depois da gripe aviária, eis a nova nóia do mundo: a gripe suína. Ou gripe mexicana, H1N1, Influenza A.

Cuidado crianças! Será que vão pregar nas ruas o único mandamento lido por Benjamim: todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais do que os outros?

“(…) Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

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arte gráfica por Luiz Bomfim

Segue aberta até o dia 6 de junho, na Galeria J. Inácio (hall da Biblioteca Epifânio Dória), a mostra coletiva “Viés” composta por 40 trabalhos de oito estudantes que cursam a pós-graduação em Artes Visuais no Senac.

Parte da programação inclui, também, um ciclo de palestras que acontece nos dias 1º e 2 de junho. No primeiro dia os temas vão ser “Arte Conceitual” ministrada pelo artista plástico Nei Alves e “Videoarte” pela pessoa que vos escreve, Luciana Almeida. Já no segundo dia o tema será “150 Anos de História da Arte” ministrada pela M.Sc. Mônica Scarpat.

As palestras começam às 20h no auditório Hilton José Ribeiro no Senac, localizado na Av. Ivo do Prado em Aracaju.

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Personagem principal interpretado por Estranho.

Personagem principal interpretado por Estranho.

Os realizadores Alessandro Santana, Bruno Monteiro e Mauro Luciano escreveram, produziram e filmaram a “A eterna maldição do Cacique Serigy” ao lema do diretor Rogério Sganzerla: “quando a gente não pode nada, a gente se avacalha e se esculhamba”. O curta com duração de 14’59”, quatro meses de produção e orçamento de pouco mais de R$ 30,00 promete ser tímido só em números. Parece até mentira, mas cinema de invenção também é feito em Sergipe. Confira, abaixo, a entrevista com Alessandro Santana e Mauro Luciano onde falam sobre sobre cinema, política e ação cultural (não necessariamente nessa mesma ordem).

Luciana Almeida – Como foi fazer o curta-metragem?

Mauro Luciano – Na minha opinião foi um fardo em se tratando de uma produção executiva, mas por outro lado uma experiência revigoradora por conta da união da equipe. Não é a história de cair na mesmice de reclamar de falta de dinheiro pra se fazer filmes, ou de falta de atenção por parte de instituições públicas que se dizem prestar serviço ao audiovisual. A questão é em se fazer um filme de qualidade sem recurso técnico algum. Muita gente tem feito isso – inclusive em Aracaju, um lugar muito atrasado no campo do audiovisual. Dá pra ver no youtube, algumas das experiências neste curso. Mas a forma do filme evidencia uma ingenuidade que, de certa maneira, é reflexo dessa incipiente produção provinciana e “quase” miserável. Então a idéia inicial foi essa: fazer um manifesto em forma de audiovisual contra a parquice da arte audiovisual do local (ainda que o filme possa ser visto como nacional também, já que a situação da miséria cultural no Brasil ainda é generalizada).

Alessandro Santana – Fazer esse curta foi um tipo diferente de experiência pra mim, pois nunca tinha trabalhado como diretor de ficção, nunca tinha trabalhado com não atores (nem atores)… Sempre acreditei e tive simpatia pela lenda da maldição. Me uni com mais alguns amigos que também são simpáticos à idéia do indígena em questão e, em 4 meses escrevemos o  roteiro, gravamos e finalizamos o curta. Participei de todos os processos (roteiro, produção, e pós produção) e digo: é estressante. Crianças, não tentem fazer isso em casa.

Luciana Almeida – Qual a importância do curta-metragem? Enquanto percebemos uma produção cinematográfica cada vez menos politizada, o “Cacique” segue no sentido contrário?

Alessandro Santana – O curta não tem importância nenhuma. É só mais uma produção audiovisual. Se ele se tornará importante, só a história dirá e mesmo assim eu sei que não vou ganhar nada com isso (além da inimizade de pessoas que por ventura se sintam atingidas pelo humor ácido do filme). Sim, ele é um filme eminentemente político que trata da formação do passado e da contemporaneidade da nossa terra de uma forma crítica e alegórica. É um filme político pela sua natureza. Se eu fosse marxista diria que era “um filme sobre luta de classes”, mas também não é deste tipo de política que estamos tratando. É algo bem maior que isso, que perdura nos séculos e essa História está mais pra terror que pra amor.

Mauro Luciano – Não acho que o filme siga contra a maré. O filme é humano, principalmente, ou até, no seu sarcasmo. Contra a maré é fazer filme pra ganhar dinheiro às custas de verba pública. Assim deveria ser visto por todos – e assim é ético. Um ponto dele que me incomodou é o ressentimento ao falar desse assunto, como se eu, Cabelo e Bruno tivéssemos raiva da produção artística de Sergipe. Bem, dá pra ver de outra maneira – é uma tentativa de crítica ao status quo de uma estética do irracional, e de um primitivismo sem raiz alguma em conceitos. Um espontaneísmo idiota que toma conta de gente que se chama de artista e intelectual (se é que essas máscaras ainda existem, na sociedade de consumo desenfreado e ávida por surrealismos pops midiáticos). Acho que nesse ponto que o filme é político também – ao impôr uma reflexão a quem assiste. Além, claro, da revigoração de uma lenda que dá um contorno ao imaginário radical de Sergipe. Até Antônio Cândido já falou desse radicalismo em personagens públicos de Sergipe. E não é por acaso, também, que partidos de esquerda ditem novas formas de gestão pública no Estado. No entanto, o radicalismo virou só fachada, perdeu o vigor (como, por exemplo, um partido comunista estar na frente com propostas evidentemente liberais, denotando uma farra de ornintorrincos, tal como Chico de Alencar deu o nome a esse novo político que bota ovos e mama, ao mesmo tempo). É uma lástima que, se vista com ressentimento, fica inaudível. Por isso é melhor ver o filme sobre uma maldição do Serigy como violento e bobo, igual a uns filmes B que vão surgindo aos montes – mas com a diferença da mensagem (militante, até) significativa que ele traz nas entrelinhas.

Luciana Almeida – Quais são as influências/referências no “Cacique”? Glauber Rocha? A idéia da produtora “Faz o que pode” remete a Sganzerla & Bressane também…

Alessandro Santana – Definitivamente temos influência de tudo aquilo com o que convivemos. Cinematograficamente falando, você está correta: temos referências no cinema novo e no cinema marginal como um modo brasileiro de ver e contar a estória, assumindo a precariedade e fazer o que é NECESSÁRIO fazer, além do que, nós três que dirigimos esta obra gostamos da estética do Glauber e do anti-cinema da BelAir, mas, por incrível que pareça, uma das minhas maiores influências foi a música sergipana. Esse barato de exaltar o ‘quase-nada’ me deixa perplexo.

Mauro Luciano – Glauber foi uma moldagem necessária, porque ele tentou inventar um cinema feito no Brasil, e com especificidades do Brasil. Ou seja, o subdesenvolvimento cultural posto em primeiro plano da forma artística, como maneira de se integrar a uma vanguarda. Mas aí vem a história de Ferreira Gullar, no livro Vanguarda e Subdesenvolvimento. O buraco fica mais embaixo, nesse debate sobre uma fórmula pobre mostrada às elites socialistas mundiais. Sem contar que Glauber Rocha foi o único, até agora, que comunicou de maneira profunda na sua alegoria, os problemas dessa ex-colônia portuguesa (ou européia). Eu acho que, até no inconsciente indígena, o Serigy tem uma força nordestina que é própria de um tipo de arte popular, que insistem em chamar de vanguardista. A rememoração de Bressane ou Sganzerla, da BelAir e dos filmes super 8, como figuras autorais desse subdesenvolvimento posto à tona, é também uma homenagem a dois artistas ainda incompreendidos por 99,9% dos espectadores de cinema e TV. Mais especificamente Sganzerla, desde o Bandido, fez esse link com a arte e o popular. Então – como fazer uma experimentação ter ares de cultura popular? Essas são as influências – de artistas que brincavam e brigavam por imagens relevantes.

Mauro Luciano, Bruno Monteiro e Alessandro Santana no set.

Mauro Luciano, Bruno Monteiro e Alessandro Santana no set.

Luciana Almeida – Uma característica do curta-metragem é a questão da precariedade. Essa característica já é um fato superado na história  da arte. Não é o orçamento de um projeto artístico que mede seu valor. Quais foram as condições de produção e  como isso interferiu  no aspecto estético-narrativo? Podemos falar sobre uma estética do precário? Segundo Hélio Oticica “da adversidade vivemos”, isso se encaixa no processo de feitura do curta de vocês também?

Mauro Luciano – Como te falei anteriormente, o curta não passou por um processo longo de produção, muito menos de discussão, elaboração. Nem mesmo teve iluminação, captação de som ambiente, preparação exaustiva de atores, roteiro – nada disso. Foi uma camerazinha amadora digital num tripé e uma idéia na cabeça, se é pra ser generoso com a vontade de se fazer do Cinema Novo. Isso entra como atributo estético? Acho que pode entrar, na medida em que todos que participaram do projeto estavam cientes de que não iriam ganhar dinheiro com aquilo, e nem mesmo sabiam no que ia dar em resultado – imagine-se entrando numa produção desse tipo… É algo que se chamaria no jargão de “fazer por amor à arte”, se a arte não estivesse no caixão faz tempo. Então o filme foi feito “por amor ao escracho”, já que é a única maneira de provocar algum rebuliço na burrice generalizada. E, convenhamos, se até o funk carioca tem sido visto com outros olhos pela crítica, porque não uma produção audiovisual tosca violenta como o filme do “Cacique” não seria?

Alessandro Santana – A precariedade é uma característica do Brasil e não acredito que num país subdesenvolvido como o nosso, a falta de recurso seja motivo para a não-produção. As nossas condições de produção foram mínimas para que se pudesse ter o resultado final necessário da obra. A gente fez o que pode dentro dos nossos limites, assumindo a precariedade da produção, fazendo claquete de fundo de gaveta e tocando adiante a produção, sem essa de esperar por iniciativas públicas para produzir. Se a imagem não tem alta definição, ou se isso ou aquilo está fora do padrão técnico esperado pela questão de precariedade de equipamentos, é isso aí mesmo o que podíamos fazer para não cair no ostracismo da não produção: Contente-se com o que está aí na tela. É o que tem e sem maquiagem. Acho que essa questão de precariedade cai mais pro lado estético do que pro narrativo, entretanto algumas questões da narrativa tiveram que ser adaptadas às nossas condições técnicas para que a sequência ou o plano pudesse dar a conotação ou resultado imagético esperado para o objetivo final. Enquanto vemos filmes lindos e vazios como uma publicidade de margarina que lhe vende um dia saudável em 30 segundos, temos filmes ‘feios’ que podem te despertar um questionamento. A partir daí, só depende do espectador. Existem os que pensam. Também existem os que só olham e falam, mas que nunca fizeram absolutamente nada além de olhar. A opinião desses não me vale de nada.  Se “da adversidade vivemos” é porque “toda unanimidade é burra”. Não fiz o filme para ser adverso. Fiz por necessidade neste exato momento da minha vida, neste lugar que não explode nem se implode.

Luciana Almeida – A “Maldição do Cacique” não deixa de ser uma alegoria sobre nossas limitações? Afinal, o personagem do cacique é um anti-herói?

Alessandro Santana – Sim, o filme é uma alegoria, mas não sobre nossas limitações. Já se deu conta que o mito da maldição do cacique é uma coisa que paira na esfera político-cultural? O personagem Serigy pode ser um anti-herói ou até um semi-herói, pois Herói mesmo é Cristóvão de Barros. Ganhou até nome de santo, nome de cidade, nome de praça… Quando Sergipe se tornou Sergipe, foi uma tentativa de se redimir perante o cacique, mas a maldição já tinha colado e nunca mais ele largou o aerostato.

Mauro Luciano – A maldição do Cacique é uma lenda. Nem tudo o que se escreve faz parte da história – existe, também, uma história oral, que é passada de geração a geração. Na idade média acontecia assim, porque ninguém sabia escrever, só a padraiada entocada nas igrejas. Hoje, a história oral é a história não oficial – a que não aceitam como a tradição porque ainda é contada por gente que não sabe ler nem escrever. Não acho que Sergipe tenha nascido, assim como a Bahia, como Fortaleza, ou mesmo a Paraíba (esse Estado sim, com uma evidente simbologia de luta, vista na bandeira) como se vê nos livros – uma terra linda com palmeiras e sabiás. Claro que o Nordeste é lindo pros europeus, mas no momento de criação dessa região a história foi de apropriação de terras, invasão, roubo, latrocínio, genocídio e estupros. Diferente do que aconteceu na parte Sul do país, que houve uma colonização na melhor acepção da palavra. Até hoje, no Nordeste, a violência é ainda latente, e ela desce até, mais ou menos, às periferias do Sudeste. É a velha história da modernização imposta de um modo conservador ( só pra elites), o que gera e gerou uma periferia marginalizada de pessoas do tipo do cacique – que é uma alegoria clara da periferia que vem desde a suposição de um revolucionário do bando de lampião como o corisco de Glauber, um latino-americano indisposto e tosco, e assim foi aceito em todas as mesas chiques que apareceu. Resumindo – não se trata de uma narrativa convencional – e por isso acho que o Serigy fica parecendo um herói, mas nem tanto -, mas sim de uma lenda oral de um povo marginalizado ( de uma história dos vencidos, como diria Walter Benjamin) transposta pras telas.

Luciana Almeida – No filme “O Bandido da Luz Vermelha” de Sganzerla há célebre frase: “quando a gente não pode nada a gente se avacalha e se esculhamba”. A lucidez possível é o riso paródico dentro do “Cacique”?

Alessandro Santana – As graçinhas nas entrelinhas estão lá. A lucidez e o riso estão com o espectador.

Mauro Luciano – Lucidez rima com iluminismo. Acho que todo mundo da equipe era a-luno(a). Não que eu ache que precisasse de um professor pra toda a turma – pelo contrário. Como o filme foi feito sem iluminação, melhor não ter lucidez nenhuma.

Equipe do curta-metragem.

Equipe do curta-metragem.

Luciana Almeida – E a satirização surge pelo desencanto? Há um certo desencanto?  O Cacique Serigy é um símbolo desse sentimento?

Mauro Luciano – O desencanto é característica da modernidade. Vi em Lefebvre que só a ironia é que domina algum tipo de mensagem codificada com o encantamento antigo, e isso o velho feio Sócrates, e o inimigo bonito dele, Nietzsche, tambem diziam. Mas aí é que tá – Sócrates moderno? Nietzsche irônico? É o que diz Lefebvre. A geração desencantada, no caso, é uma geração violentada, usurpada, alienada e toscamente armada. E nisso há razão, há iluminação – mas de outro tipo. Talvez romantizada. Mas eu prefiro achar que é anti-utópica, ainda que revoltada. O Serigy apareceu na hora certa pra mostrar um grito que em vários lugares da américa latina roubada até hoje pelas grandes aristocracias burguesas do mundo deveria ser ouvido. Pra os grã-finos do Banco Mundial ou da ONU ouvissem não só a diplomacia de conversas a sete chaves em ONGs entocadas, mas a indignação de marginais que hoje estão se organizando no crime. Faltou uma bomba atômica na cidade, no fim do filme.

Alessandro Santana – A satirização, no meu caso, já é o que podemos chamar de estilo de vida. Admito: faço parte dos citados na bíblia como ‘a roda dos escarnecedores’. Não perco oportunidade de fazer uma galhofa, e como sergipano, nascido em Aracaju, me sinto com todo o direito de dizer (ao meu jeito) o que eu acho sobre o lugar onde nasci e vivo. Desencanto com este lugar, não tenho porque nunca me encantei com nada por aqui. O filme na verdade é o símbolo de um sentimento de quem se sente roubado por uma pessoa que nunca viu na vida com a conivência dos seus semelhantes, enquanto todos fazem vistas grossas ou reclamam, mas não fazem nada a respeito. Nem um curta-metragem.

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