
Enrique Diaz e Coutinho na contação do documentário.
O gênero documentário é o melhor da produção cinematográfica brasileira nos últimos vinte anos. Parece que a ficção se tornou, boa parte, estetizada ou sisuda demais. Somos um tanto órfãos. Sinto falta de um cinema sacana e crítico, como ninguém faz desde da produtora Belair. Para irritação de Júlio Bressane, cadê os filhos do (mal)dito cinema marginal?
Voltemos ao ponto: o trabalho novo (sic!) de Eduardo Coutinho que vi no Espaço Unibanco, conhecido como o Cine Glauber Rocha. Aliás, não posso deixar de dizer que depois de morto, Glauber conseguiu alcançar seu projeto político pro cinema brasileiro. No espaço há lindos painéis dos principais filmes dele nas paredes do multiplex. Avistei um paredão específico com plano americano do Porfírio Diaz na clássica sequência de “Terra em Transe” (onde carrega a cruz) juntamente com a logomarca do Unibanco. É realmente irônica as veredas desse sertão-mundo. Enfim, continuemos ao pequeno comentário sobre “Moscou”.
Senti um setentão dando um passo no escuro, melhor intencionada, diria andando pra frente. Vi um Coutinho radicalizando seu objeto, talvez assumindo mais riscos. O que também não é novidade na sua longa trajetória. Até hoje Coutinho tem um diferencial em relação a turma do CPC (Centro Popular de Cultura). Quando dô esse exemplo me refiro ao “Quatro Vezes Favela”. Enquanto seus parceiros de registros documentais ficavam bastante presos ao roteiro, Coutinho sempre permitia o espaço do inacabado no seu trabalho. O carioca sempre se propôs a ter uma obra mais aberta, ao esquema working in progress. De “Cabra marcado para morrer” até agora, o modus operandi de Coutinho sempre permite uma variação e um acaso que nenhum outro documentarista consegue se ater. Ele virou escola, desenvolveu uma forma de cinema que neguinho fica aí se desdobrando para dar continuidade.
Ao ir na bilheteria é como se Eduardo Coutinho, logo depois de ter fumado um cigarro, pegasse nossa mão e dissesse: – Vem comigo. Tenho algo pra mostrar do que vi e do que me contaram, mas saiba que quero te dizer de como tudo foi feito. Assim começa “Moscou”: a câmara voltada para uma mesa vazia e sua indefectível voz pigarrenta in off nos narrando o presente (com verbos no passado) sobre seu jogo. Durante poucas semanas ele fala que fez o registro da montagem de uma peça “As três irmãs” Anton Tchekhov juntamente com grupo teatral “Galpão“. Temos várias narrativas ali dentro: os atores se narrando com o fazer a peça, a narrativa do diretor, são as cenas da peça, as encenações das vidas dos atores e o ensaio de fazer um documentário sobre isso tudo.
Certa vez li uma entrevista feita por Mauricio Stycer com Coutinho onde falava sobre as incompetências da esquerda. Sua capacidade de diagnosticar aquilo que todos sabem, mas não conseguem verbalizar é notável. Coutinho permanece político. De certa forma, me parece que aborda um novo patamar dos entraves da política de criação (do fazer cinema documental?). A câmera, os atores, ele (como personagem de diretor) e nós (espectadores) estão em intensa negociação. Já não interessa ficar naquela de debater “o real”, agora é ir além do discurso do “irreal”, focar naquilo que se define como invenção, memória etc…
A consagração como um dos melhores cineasta na atualidade poderia ser um empecilho de criar. Pelo contrário, faz um Coutinho com menos certezas. O velhinho disse que depois de ter filmado todo processo e partir para edição teve dúvidas se realmente havia, ali, um filme. Pasmem! Concluir isso depois de mais de 70 horas de gravação!? Recorreu ao seu produtor, também cineasta, João Salles. Talvez tenha deixado isso como brecha e partilha pro seu espectador.
O pensamento cinematográfico coutiniano sobre o pacto entre os filmados, quem filma e os espectadores está cada vez menos necessário, embora seja super legítimo e honesto. Era como se seu filme anterior “Jogo de Cena” fosse um desenho do que havia por vir. Antes ele assumiu a responsabilidade de gravar atrizes conhecidas pela televisão, atrizes de teatro, mulheres não atrizes. Todas manejavam a cena relatando histórias entre o falso e verdadeiro, convencimento, truque, repetição, brincadeira. Deveras um filme metalinguístico. Ali é ele dizendo o que pensa literalmente do cinema, mas em “Moscou” nada disso vale.
Agora, Eduardo Coutinho coloca um ator contando sua própria história em encenação e fazendo parecer que o quê realmente interessa é ser tudo irreal/real ao mesmo tempo. Somos convidados a viver a angústia em cena, na cena e no desvelar dos enquadramentos. Sai da sala escura com a sensação que o cabra de cabeleira branca quer mais. Sua tese de documentário como ficção se consolida e começa a tomar novas formas de subjetivação (e pode?).
Nunca tinha visto um Coutinho apalpando algo tão irresoluto. Do lado de cá da poltrona, senti um diretor bastante brechtiano. Será que foi por isso que’le escolheu o “Galpão”? A confiança é arapuca no cinema coutiniano. O filme é, antes de mais nada, um registro de busca. Na peça “As três irmãs” a cidade de Moscou é a representação da utopia, em “Moscou” é o não-lugar do Eduardo Coutinho. O que nos resta enquanto espectadores é contingente. E, agora, o que será que’le vai fazer no seu próximo laboratório?